A Valsa.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Um pé nunca dá um passo sozinho. E quando assim é, o tropeço toma a cena.
Num tombo, meu pé desencontrou-se do seu, e nosso compasso ficou perdido no ar. O tempo passou e algo se perdeu. Não por falta de zelo, porque cuidado nunca faltou.

Teus sapatos de dança não mais lustravam. Minhas sapatilhas de cetim, com suas fitas claras, não mais abraçavam meus tornozelos. Algo, em algum momento, realmente se perdeu.


Meus pés agora estão descalços, porém aquecidos. As sapatilhas, que ora usei, agora servem-me de jardineira! Estão penduradas na varanda, no nascente, onde minhas flores crescem saudosas com o calor da manhã.

Se teus sapatos gastos também não têm mais uso, fure-os. Um pequeno regador terás, ao alcance das mãos, para regar as plantinhas do seu caminho.

Fantasmas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu tinha medo de fantasmas. Quando pequena, minha avó dizia que eles vinham na calada da noite puxar nossos pés, quando se sentiam no direito de nos cobrar algo.

"- Seja uma boa menina!", dizia ela.

Mamãe sempre dizia para eu não sair à rua sozinha. Às vezes, admito, quando ela estava ausente, seu saia para brincar de andarilha no conjunto, mas nunca saía da redondeza da casa. Mesmo estando "livre", eu ainda tinha um senso de auto-preservação: vai que algum desvairado me roubasse? Eu me denunciaria! [risos]

Ainda que as aventuras pelo mundo afora me encantassem, considero que fui uma boa menina. Não havia motivo para que os fantasmas se quer fizessem cócegas em meus pés. Mas.. o tempo passa e a gente cresce. Os fantasmas de hoje nada tem a ver em ser boa ou má menina. Tem a ver com boas e más ações, e estes não puxam os pés de seus devedores, mas martelam em suas consciências.

Sabe, sempre devemos exercitar a empatia - capacidade psicológica para se identificar com o eu de outro, conseguindo sentir o mesmo que este nas situações e circunstâncias por esse outro vivenciadas - e o bom-senso. Uma palavra mau-dita, um olhar de desdém, ou um silêncio torto podem acabar com o dia de outra pessoa. Devemos sempre pensar que estamos num universo cíclico, onde nada se cria, nada se perde, tudo se transforma em meio a essa entropia louca.

Alguns gritam em alto e bom som: "- o que vai, voltaaaa!", e eu não desacredito isso. Quem tem um conhecimento básico de física e química sabe que somos feitos de energia, e, segundo os teoristas dessas ciências, a energia está em trânsito o tempo todo em forma de ondas ou partículas. Se o bem vai, ele volta e perdura, circulando sempre em coisas boas. A recíproca é verdadeira para o mau: ele também vai, e também volta, e perdura em um vórtice que só piora (se não houver estímulo de mudança, claro).

Estamos em um mundo não muito adiantado, é sabido isso. Mas, se estamos em um planeta de regeneração, por quê não seguir o caminho da evolução? É sabido também que não involuímos, no máximo, estagnamos (o que, ao meu ver, é muito pior). Os fantasmas nada mais são que aquilo que fazemos de mal com o outro. Coisas que não gostaríamos que nos fizessem (cadê a empatia?). Quando temos a ciência dos nossos maus-atos é que o tal fantasminha - nada camarada - aparece em nosso subconsciente.

Então, sábias são a Vovó e a Mamãe: sendo boas meninas e bons meninos e os fantasmas não se aproximarão.

Companhia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Na minha boca agora mora o teu nome,
E a vista que os meus olhos querem ver.
Sem precisar procurar,
Nem descansar e adormecer.

Não quero acreditar que vou gastar desse modo a vida!
Olhar 'pro o sol e só ver janela e cortina!
No meu coração fiz um lar,
[O meu coração é o teu lar!]
E de quê me adianta tanta mobília se você não está comigo..?



[Cássia Eller - No Recreio]

A Ordem da Casa.

Certo dia, demoli minha casa, por pura tristeza e angústia. Recomecei, desde o alicerce até o telhado; refiz o piso e recoloquei o forro. Coloquei cortinas novas para enfeitar minhas janelas de madeira. Plantei flores no meu jardim. Certa hora parei e refleti: de que adianta toda essa organização se, por fim, não há com quem dividir as pequenas satisfações?

Hei de convir que para que entrassem na minha casa coloquei alguns empecilhos: pedi que o sr. ferreiro me fizesse um grande portão de ferro, daqueles que seguram as rajadas de vento e as chuvas de granizo; depois, pedi que o sr. marceneiro me fizesse belas janelas, onde eu pudesse (re)contemplar as belezas de meu terreno, e que fizesse uma grande porta de entrada, onde eu e toda a minha paz pudessemos ir e vir com maior conforto. Ao pedreiro encomendei as escadas para a minha entrada. Escadas altas e também bonitas, onde os pássaros e os bichanos pudessem brincar e descansar. Mas meu portão era pesado demais para ser aberto por uma pessoa só. Minhas escadas eram altas, cansavam as visitas, e minha linda porta de entrada estava sempre trancada.

Nesses últimos tempos andei repensando numa reforma (Não demolição, só uma reforminha mesmo!). Chamei alguns amigos para me ajudarem: esses nunca tiveram grandes dificuldades de alcançar minha morada. Destes, uns se empenharam mais em me ajudar a colocar a casa em novos eixos.

Um, em especial, colocou óleo nas rodanas do meu portão; colocou lindos corrimões em minha escadaria; pegou a chave da porta de entrada e a semeou no jardim! Em minhas janelas plantou margaridas, que reluziam a luz morna da manhã. Minha casa está em ordem como nunca houvera.. Os dias de sol são belos. Os dias de chuva, mais ainda! O vento balança a rede e nina nossos olhos.

Hoje, minha casa não é mais solitária: o chão marca os passos de quatro pés e quatro mãos (porque na hora da cosquinha, só o chão pra aguentar toda a euforia!). A pia da cozinha nunca mais se sentiu solitária: há sempre duas xícaras, do café da madrugada, fazendo companhia até amanhecer. A cama agora é pequena demais para abrigar duas batidas de coração - que estão sempre tão juntos que acostumaram-se a bater no mesmo ritmo.

Assim como disse meu querido Jobim, fundamental é mesmo o amor: é impossível ser feliz sozinho.

Música Ambiente.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008


And when I find the controls,
I'll go where I like,
I'll know where I want to be..
But maybe for now
I'll stay right here..
..on a silent sea.


On a silent sea.

[KT Tunstall - Silent Sea.]
[imagem: Jovan .: Yolks Yogurt.]

Prazeres à meia-luz.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008


A suavidade dos cabelos
O contorno do rosto
O brilho dos olhos
O prazer do sorriso
O calor do corpo
O afago dos braços
A cumplicidade da pele
O encaixe dos pés.

Só o nosso tempo
pode testificar.