Certo dia, demoli minha casa, por pura tristeza e angústia. Recomecei, desde o alicerce até o telhado; refiz o piso e recoloquei o forro. Coloquei cortinas novas para enfeitar minhas janelas de madeira. Plantei flores no meu jardim. Certa hora parei e refleti: de que adianta toda essa organização se, por fim, não há com quem dividir as pequenas satisfações?
Hei de convir que para que entrassem na minha casa coloquei alguns empecilhos: pedi que o sr. ferreiro me fizesse um grande portão de ferro, daqueles que seguram as rajadas de vento e as chuvas de granizo; depois, pedi que o sr. marceneiro me fizesse belas janelas, onde eu pudesse (re)contemplar as belezas de meu terreno, e que fizesse uma grande porta de entrada, onde eu e toda a minha paz pudessemos ir e vir com maior conforto. Ao pedreiro encomendei as escadas para a minha entrada. Escadas altas e também bonitas, onde os pássaros e os bichanos pudessem brincar e descansar. Mas meu portão era pesado demais para ser aberto por uma pessoa só. Minhas escadas eram altas, cansavam as visitas, e minha linda porta de entrada estava sempre trancada.
Nesses últimos tempos andei repensando numa reforma (Não demolição, só uma reforminha mesmo!). Chamei alguns amigos para me ajudarem: esses nunca tiveram grandes dificuldades de alcançar minha morada. Destes, uns se empenharam mais em me ajudar a colocar a casa em novos eixos.
Um, em especial, colocou óleo nas rodanas do meu portão; colocou lindos corrimões em minha escadaria; pegou a chave da porta de entrada e a semeou no jardim! Em minhas janelas plantou margaridas, que reluziam a luz morna da manhã. Minha casa está em ordem como nunca houvera.. Os dias de sol são belos. Os dias de chuva, mais ainda! O vento balança a rede e nina nossos olhos.
Hoje, minha casa não é mais solitária: o chão marca os passos de quatro pés e quatro mãos (porque na hora da cosquinha, só o chão pra aguentar toda a euforia!). A pia da cozinha nunca mais se sentiu solitária: há sempre duas xícaras, do café da madrugada, fazendo companhia até amanhecer. A cama agora é pequena demais para abrigar duas batidas de coração - que estão sempre tão juntos que acostumaram-se a bater no mesmo ritmo.
Assim como disse meu querido Jobim, fundamental é mesmo o amor: é impossível ser feliz sozinho.