ao Sr. Favilla.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Moço do sorriso claro,

Que traz consigo a riqueza das pedras brancas
Do rio de águas transparentes
Não cales teus olhos tenros,
Onde habita a esperança que clareia dias bons.

Envolva teus braços dóceis
Em minha cintura larga dos anos fartos.
Gira-me ao som do vento, em passos ritmados,
Da nossa dança sem fim.

Quando cansares, abraça-me forte,
Que te faço adormecer,
Ninado pelos movimentos da minha respiração,
Lenta e calma,
Pela tua presença.

Feche os olhos, amor.
Só assim sonhamos por dentro.

Sentimentos Reprimidos.

domingo, 21 de dezembro de 2008



Deixa em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção,
Faça não,
Pode ser a gota d'água.



[Chico Buarque.]

O Sonho.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that I'm sad

I take my ride in melodies and bees and birds
Will hear my words
Will be both us and you and them together

I can forget about myself trying to be everybody else
I feel allright that we can go away
And please my day
I'll let you stay with me if you surrender..

[...]


.. eu ando em frente por sentir vontade.


[Janta - Marcelo Camelo]
[Ilustração - Carla Antunes]

A Valsa.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Um pé nunca dá um passo sozinho. E quando assim é, o tropeço toma a cena.
Num tombo, meu pé desencontrou-se do seu, e nosso compasso ficou perdido no ar. O tempo passou e algo se perdeu. Não por falta de zelo, porque cuidado nunca faltou.

Teus sapatos de dança não mais lustravam. Minhas sapatilhas de cetim, com suas fitas claras, não mais abraçavam meus tornozelos. Algo, em algum momento, realmente se perdeu.


Meus pés agora estão descalços, porém aquecidos. As sapatilhas, que ora usei, agora servem-me de jardineira! Estão penduradas na varanda, no nascente, onde minhas flores crescem saudosas com o calor da manhã.

Se teus sapatos gastos também não têm mais uso, fure-os. Um pequeno regador terás, ao alcance das mãos, para regar as plantinhas do seu caminho.

Fantasmas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu tinha medo de fantasmas. Quando pequena, minha avó dizia que eles vinham na calada da noite puxar nossos pés, quando se sentiam no direito de nos cobrar algo.

"- Seja uma boa menina!", dizia ela.

Mamãe sempre dizia para eu não sair à rua sozinha. Às vezes, admito, quando ela estava ausente, seu saia para brincar de andarilha no conjunto, mas nunca saía da redondeza da casa. Mesmo estando "livre", eu ainda tinha um senso de auto-preservação: vai que algum desvairado me roubasse? Eu me denunciaria! [risos]

Ainda que as aventuras pelo mundo afora me encantassem, considero que fui uma boa menina. Não havia motivo para que os fantasmas se quer fizessem cócegas em meus pés. Mas.. o tempo passa e a gente cresce. Os fantasmas de hoje nada tem a ver em ser boa ou má menina. Tem a ver com boas e más ações, e estes não puxam os pés de seus devedores, mas martelam em suas consciências.

Sabe, sempre devemos exercitar a empatia - capacidade psicológica para se identificar com o eu de outro, conseguindo sentir o mesmo que este nas situações e circunstâncias por esse outro vivenciadas - e o bom-senso. Uma palavra mau-dita, um olhar de desdém, ou um silêncio torto podem acabar com o dia de outra pessoa. Devemos sempre pensar que estamos num universo cíclico, onde nada se cria, nada se perde, tudo se transforma em meio a essa entropia louca.

Alguns gritam em alto e bom som: "- o que vai, voltaaaa!", e eu não desacredito isso. Quem tem um conhecimento básico de física e química sabe que somos feitos de energia, e, segundo os teoristas dessas ciências, a energia está em trânsito o tempo todo em forma de ondas ou partículas. Se o bem vai, ele volta e perdura, circulando sempre em coisas boas. A recíproca é verdadeira para o mau: ele também vai, e também volta, e perdura em um vórtice que só piora (se não houver estímulo de mudança, claro).

Estamos em um mundo não muito adiantado, é sabido isso. Mas, se estamos em um planeta de regeneração, por quê não seguir o caminho da evolução? É sabido também que não involuímos, no máximo, estagnamos (o que, ao meu ver, é muito pior). Os fantasmas nada mais são que aquilo que fazemos de mal com o outro. Coisas que não gostaríamos que nos fizessem (cadê a empatia?). Quando temos a ciência dos nossos maus-atos é que o tal fantasminha - nada camarada - aparece em nosso subconsciente.

Então, sábias são a Vovó e a Mamãe: sendo boas meninas e bons meninos e os fantasmas não se aproximarão.

Companhia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Na minha boca agora mora o teu nome,
E a vista que os meus olhos querem ver.
Sem precisar procurar,
Nem descansar e adormecer.

Não quero acreditar que vou gastar desse modo a vida!
Olhar 'pro o sol e só ver janela e cortina!
No meu coração fiz um lar,
[O meu coração é o teu lar!]
E de quê me adianta tanta mobília se você não está comigo..?



[Cássia Eller - No Recreio]

A Ordem da Casa.

Certo dia, demoli minha casa, por pura tristeza e angústia. Recomecei, desde o alicerce até o telhado; refiz o piso e recoloquei o forro. Coloquei cortinas novas para enfeitar minhas janelas de madeira. Plantei flores no meu jardim. Certa hora parei e refleti: de que adianta toda essa organização se, por fim, não há com quem dividir as pequenas satisfações?

Hei de convir que para que entrassem na minha casa coloquei alguns empecilhos: pedi que o sr. ferreiro me fizesse um grande portão de ferro, daqueles que seguram as rajadas de vento e as chuvas de granizo; depois, pedi que o sr. marceneiro me fizesse belas janelas, onde eu pudesse (re)contemplar as belezas de meu terreno, e que fizesse uma grande porta de entrada, onde eu e toda a minha paz pudessemos ir e vir com maior conforto. Ao pedreiro encomendei as escadas para a minha entrada. Escadas altas e também bonitas, onde os pássaros e os bichanos pudessem brincar e descansar. Mas meu portão era pesado demais para ser aberto por uma pessoa só. Minhas escadas eram altas, cansavam as visitas, e minha linda porta de entrada estava sempre trancada.

Nesses últimos tempos andei repensando numa reforma (Não demolição, só uma reforminha mesmo!). Chamei alguns amigos para me ajudarem: esses nunca tiveram grandes dificuldades de alcançar minha morada. Destes, uns se empenharam mais em me ajudar a colocar a casa em novos eixos.

Um, em especial, colocou óleo nas rodanas do meu portão; colocou lindos corrimões em minha escadaria; pegou a chave da porta de entrada e a semeou no jardim! Em minhas janelas plantou margaridas, que reluziam a luz morna da manhã. Minha casa está em ordem como nunca houvera.. Os dias de sol são belos. Os dias de chuva, mais ainda! O vento balança a rede e nina nossos olhos.

Hoje, minha casa não é mais solitária: o chão marca os passos de quatro pés e quatro mãos (porque na hora da cosquinha, só o chão pra aguentar toda a euforia!). A pia da cozinha nunca mais se sentiu solitária: há sempre duas xícaras, do café da madrugada, fazendo companhia até amanhecer. A cama agora é pequena demais para abrigar duas batidas de coração - que estão sempre tão juntos que acostumaram-se a bater no mesmo ritmo.

Assim como disse meu querido Jobim, fundamental é mesmo o amor: é impossível ser feliz sozinho.

Música Ambiente.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008


And when I find the controls,
I'll go where I like,
I'll know where I want to be..
But maybe for now
I'll stay right here..
..on a silent sea.


On a silent sea.

[KT Tunstall - Silent Sea.]
[imagem: Jovan .: Yolks Yogurt.]

Prazeres à meia-luz.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008


A suavidade dos cabelos
O contorno do rosto
O brilho dos olhos
O prazer do sorriso
O calor do corpo
O afago dos braços
A cumplicidade da pele
O encaixe dos pés.

Só o nosso tempo
pode testificar.

Sobre Perdas e Ganhos.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Despedaçamo-nos quando perdemos algo que nos era de grande valia. Cada pedacinho do estardalhaço que se faz presente dentro do peito tem uma estória, tem uma alma, um aprendizado.

Ora. Por que negamo-nos a ver a dor como uma chance de recomeço? Ou de crescimento? Não seria isso um grande gesto de auto-flagelação e auto-piedade, além de egoísmo?

Eu vos digo, de peito aberto, que cada letra, cada palavra que escrevo, tem lá sua alegria e seu pesar. Aprender a tomar a dificuldade e transformá-la em conhecimento (e por que não dizer AUTO-conhecimento!) é fruto de muita reflexão, de boa vontade, de boa fé, de boa mão..

E se cada pedacinho de um destroço gerasse algum fruto ou provento? Pensemos um pouco.. esforcemo-nos! Quando o coração é bom, cada pedacinho desgarrado da alma é uma semente que ajuda ou transforma outro ser. Pensar que os pedacinhos soltos são só sofrimento, só atesta, mais uma vez, que o egoísmo prevaleceu.

Lancemos nossos cacos ao ar, assim como os Dentes-de-Leão: que geram mais flores e mais flores nesse planetinha tão sofrido nosso!

(In)definindo o amor.

quinta-feira, 24 de julho de 2008


O amor se aprende? Se usarmos a mesma ótica em vários âmbitos da vida, podemos concordar. O amor se aprende sim. Bem como o medo se aprende, o preconceito, a preocupação, o ódio, a responsabilidade, a bondade, a distinção, entre outros. Tudo isso se aprende na sociedade, no lar, num relacionamento.

Desconheço outra cultura tão dedicada ao prazer quanto a nossa. Perdemo-nos em busca do prazer, tanto que nos esquecemos que existem outras coisas. Somos uma cultura que detesta o sofrimento, mas ele acaba sendo um mestre em nossas vidas. Não estou dizendo para embutirmos sofrimento no coração, afinal, prefiro a alegria, que também é uma grande mestra.. e desespero, o assombro, a confusão, estes também o são!

Quais os fatores que nos impedem de ver o que é essencial? Costumamos ver apenas uma parcela das coisas em nosso ambiente. Há uma porção de coisas ao nosso redor, a todo momento, e nossos sentidos nos limitam enxergar as coisas mais simples. Para onde quer que voltemos nossas atenções, temos (in?)consciência que temos um espaço reduzido e pior, nos satisfazemos em pensar que é só o que existe.

E o AMOR, nada mais é do que a vida em todos os seus aspectos.

Abdicação

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho... eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


Fernando Pessoa, 1913