Felicidade.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Por aqui, senhor, os dias andam teimosamente claros - de certo pelo reflexo reluzente dos cristais que arrasta consigo nos olhos. Não existe medo em minhas palavras, deixe disso, é que já quase não me lembro como é a escuridão e toda sua ausência de cor.

Reparo, já há algum tempo, que as cores parecem ter mais vida, mais cheiro, mais tato. Talvez o arcabouço do meu mundo tenha dado uma trégua, ou simplesmente eu tenha deixado o sol entrar por entre as grades que me cercavam. Entenda, senhor, que muitas vezes a cabeça pensa, mas o coração se nega a executar algo que gere dor. Dor-boa, dor-ruim. Ele não sabe diferenciar.

Foi assim que por um ato de atrevimento resolvi saltar cachoeira abaixo. O medo e o prazer caminham juntos, sabes? Por fim, o fervor no meu estômago foi mais saboroso que imaginava: lá estava a água cristalina - aquela mesma que alimenta teus olhos - a me receber de leito aberto, saudosa ao lavar todas as maldades-do-mundo da minha alma.

Sou coisa-leve hoje em dia. Tão leve que até as brisas mais brandas me fazem dançar. Vivo de luz e de água-de-cachoeira, como as flores. Tenho cheiro próprio, que o senhor bem sabe qual é. Tenho a delicadeza das gerações passadas, e carrego comigo o legado do aprendizado que a vida penou a me ensinar.

Bem sabes que cada um tem sua lágrima-de-vidro, e cada um sabe o seu peso. Assim como a cachoeira me estendeu seu véu, eu te estendo a mão - é sabido que minha mão é sua, e a sua minha, senhor, mas preciso além disso da sua vontade, aquela que se usa para vencer. Não é gesto bobo. Assim como não foi bobo pular da cachoeira.

Eu quero mesmo, senhor, é que você também não se lembre mais da ausência de cor, da falta de brilho e falta de contraste. Quero que fixe em sua memória apenas as belas matizes sólidas que tateias enquando sorrio, e que se lembre de cada prazer, cada descoberta. Quero que as pedras que seguram teu balão cor-de-laranja o soltem, e que você também possa voar, assim como eu, quando entro em ti.